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Estónia. “O voto eletrónico traz igualdade mas (ainda) não é para todos”

(Diana Quintela / Global Imagens)

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Estónia. É um dos países mais digitais no mundo, já com todos os serviços integrados numa plataforma na cloud. Numa conversa com a presidente do pequeno país, Kersti Kaljulaid, ficámos a saber como a digitalização da sociedade estónia está a tornar o país apetecível.

Alta, elegante, de cabelo bem curto e extremamente determinada, ou não fosse a sua agenda em Portugal uma corrida contra o tempo repleta de eventos e visitas. A presidente da República da Estónia, Kersti Kaljulaid, esteve em Portugal, a convite de Marcelo Rebelo de Sousa. Foram assinados acordos bilaterais entre os dois países no sentido de melhorar a compatibilidade digital entre eles.

A Estónia, tal como Portugal, é um dos países mais pequenos da União Europeia, tendo apenas 1,3 milhões de habitantes. O país tornou-se independente pela primeira vez no início do século XX, depois de domínios diferentes, entre alemães, dinamarqueses, suecos, polacos e russos. Na II Grande Guerra voltou ao domínio soviético, de que se libertou em 1991.

A reinvenção do país já na era digital tornou a sociedade estónia numa das mais avançadas a nível mundial, ao ponto de ter começado os votos online a partir de 2003 – a nível oficial em 2005. Em 2014 tornou-se no primeiro Estado a providenciar aquilo que chama de e-residência, como forma de atrair cidadãos estrangeiros que queiram ter residência digital no país – algo feito para atrair investimento e startups para o país.

Kersti Kaljulaid é a quinta presidente do país (a primeira mulher a ocupar o cargo) e, desde 2016, tem ajudado a fazer evoluir aquela que é apelidada pela CNBC como uma das mais entusiasmantes sociedades digitais no mundo – existe mesmo um site para explicar a sociedade digital do país. ‘Apanhámo-la’ a visitar as instalações da fintech estónia Monese, que tem um dos seus três escritórios europeus em Lisboa (vai triplicar de funcionários em Portugal até ao final do ano – atualmente são 18).

Da Estónia também vem a principal rival na Europa (e também em África) da Uber, a Bolt (antiga Taxify), que conquistou já os portugueses e tornou-se também nos últimos meses na grande rival da Uber em Portugal.

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À Insider destaca como “o nosso tempo como humanos no planeta Terra é limitado, daí que salvar quatro ou cinco dias por ano graças à eficiência digital é relevante”. A sua defesa por uma sociedade digital é inabalável: “O digital consegue criar uma sociedade mais inclusiva, que é muito mais igualitária, não só para as mulheres mas também para as pequenas empresas”. Daí que garanta:

“É sempre dinheiro bem gasto apostar em serviços digitais em qualquer países”.

Portugal e Estónia têm em comum serem países europeus pequenos e que apostam em serviços digitais, embora no caso estónio essa aposta está num nível muito mais evoluído. Quais as perspetivas para esta visita?

Temos muitas empresas vindas da Estónia que vêm na nossa comitiva, que trabalham em efinance (finança eletrónica) ou ehealth (serviços digitais na saúde) e assinámos um memorando de entendimento em ehealth. Esperamos desenvolver sistemas de prescrição eletrónica de receitas para que as pessoas possam poder usar a mesma receita nos dois países. Penso que estes acordos são uma forma de digitalizar esta área importante na Europa de uma forma mais rápida. Todos sabemos o quão frustrante é ter sistemas digitais no nosso país, mas depois de passarmos a fronteira voltamos ao método analógico. Podemos ser digitais, como na Amazon ou na Google, mas lá não temos uma identidade segura para questões sensíveis como a saúde. Na Europa, através do regulamento eIDAS (Identificação Eletrónica e Serviços de Confiança) podemos cooperar e isto cria um novo e enorme mercado único digital. Ambos os nossos dois países podem beneficiar muito disto.

Têm já uma tradição eletrónica e digital ímpar na Europa. Como têm sido esse crescimento?

Faz parte do nosso ADN dos últimos anos, senão não teríamos empresas como a Bolt ou a Monese. A Monese é uma empresa estónia, é um banco no nosso bolso, e podemos usar os serviços de forma global. E as autoridades portuguesas e da Estónia sabem como estes sistemas bancários podem funcionar e ajudar a mudar uma área que tinha problemas até de credibilidade. Há um sem número de melhorias se optarmos pelo digital, como nós temos experienciado e esta era digital é mesmo uma oportunidade fantástica para ambos os países, que são mercados pequenos. Precisamos de ir além das nossas fronteiras e o digital permite a empresas locais tornarem-se globais mais facilmente. Podemos trabalhar para a Estónia e viver em Portugal e vice versa. Se precisarmos de uma morada para uma conta bancária mas o empregador está num país diferente, hoje em dia não é fácil conseguir isso de forma tradicional. Daí termos dado aos nossos cidadãos livre movimento para o trabalho ou para o comércio o que ajuda e muito a termos todos os serviços do Estado disponíveis online. Por exemplo, se eu quiser pagar os meus impostos da minha empresa estónia, posso fazê-lo online, mas noutros países temos de fazer isto tudo em papel. Em empresas pequenas ter de fazer tudo de forma mais burocrática é algo que se torna dispendioso. Aqui em Portugal, as pessoas percebem, como na Estónia que, se o Estado for mais digital, poupamos quatro a cinco dias de trabalho todos os anos. É o nosso cálculo na Estónia e acredito que aqui é semelhante.

Visita da presidente da Estónia Kersti Kaljulaid às instalações da Monese
(Diana Quintela / Global Imagens)

Quais as vantagens de um estado tão digital. Atraem mais empresas externas assim?

Temos tido um crescimento de empresas e startups incrível e conseguimos já que 10% do nosso PIB venha precisamente das TIC (empresas de Tecnologias de Informação e Comunicação). Ajuda termos já todos os nossos serviços públicos online. Isso permitiu-nos criar um hub enorme de startups na Estónia. Mas esta aposta em serviços digitais não é importante apenas para as empresas, também é muito bom para todas as pessoas. Todos temos no máximo um século neste planeta Terra. Salvar quatro a cinco dias por ano é um ganho enorme em tempo livre, em eficiência. É um grande dinamizador de igualdade também, porque mulheres com filhos pequenos que não podem ir às instituições físicas porque têm muitas tarefas profissionais e caseiras, assim podem fazer quase tudo online. Para comunicar com os serviços do Estado, por exemplo, ou candidatar-se a serviços sociais, já não é só das 9h às 17h, com paragem para almoço. No online os serviços estão sempre abertos. Se formos mais inclusivos assim, todos participam mais na sociedade e perdem menos tempo. Isto também ajuda a tornar a nossa sociedade muito mais igualitária. Empresas pequenas e médias, tal como pessoas simples ganham mais com isto, porque os ricos e empresas grandes têm muitas formas de gerir burocracia, mas pessoas normais não têm. É isso que o digital consegue fazer: cria uma sociedade inclusiva, que é muito mais igualitária. Por isso é sempre dinheiro bem gasto apostar em serviços digitais seja qual for o país.

Em termos de voto eletrónico (evoto), já têm há algum tempos, mas há muitos países que olham para ele com preocupação por causa da segurança…

Já temos desde 2003. Mas não podemos comparar máquinas de evoto e um sistema evoto como nós temos com aquilo que vemos noutros países. Por exemplo, se eu entrar no sistema, faço-o através do cruzamento digital de todo o nosso ecossistema. Aqueles que queiram ver o que estou a fazer no sistema, nunca saberão que vou votar sequer porque posso estar a usar um qualquer outro serviço. As questões de segurança estão intrinsecamente relacionadas com a proteção que damos à identificação digital. É que sem uma identidade digital segura não devemos sequer pensar em desenvolver o sistema evoto num país. Portanto, primeiro devemos garantir que a identificação digital existe e funciona bem, depois praticar o que chamo de higiene cibernética, para que as pessoas aprendam a manter a sua identidade segura e só depois pode-se pensar no evoto. Não se pode começar logo pelo evoto, mas sim com serviços que não exigem esta confiança de nível tão elevado. Ou seja, devemos construir gradualmente esta aceitação na sociedade para que o evote seja seguro. Os votos deve ser o último passo na cadeia digital, quando a sociedade já confia e sabe usar estes serviços. No nosso país está a funcionar muito bem, mas faz toda a diferença sermos pequenos e termos começado cedo a apostar forte na era digital.

 

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