Uma máscara que dá desejo sexual? Sim, existe e vem do MIT
João ToméExplorar, experienciar e contar 'estórias'. Primeiro nas Caldas da Rainha, essa bela localidade, depois pelo mundo como jornalista. A minha paixão pela rádio nasceu na TSF, o gosto pela imprensa e pelo online cresceu inicialmente no Público, passou pela Visão, Destak, Sábado, AutoSport, Notícias Magazine, entre outras colaborações. Na televisão juntaram-se várias paixões nos programas 35mm, TV Turbo e Volante (SIC Notícias). Tecnologia, inovação, gadgets, automóveis, desporto e, claro, a magia do cinema são as áreas preferidas e sobre as quais escrevo e transformo em vídeos desde (quase) sempre. Vemo-nos por aí.Inovação
O peculiar aparelho criado na universidade norte-americana permite controlar uma pessoa pela sua própria respiração e faz parte de um estudo sobre a influência da tecnologia no ser humano.
Nós não estamos no controlo. Não é só daquilo que nos rodeia, é também das nossas próprias emoções. Pelo menos é isso que pretende demonstrar um projeto do MIT (o Massachusetts Institute of Technology, de Boston), com um gadget que promete dar muito que falar.
Num esforço em explorar a forma como a tecnologia nos pode influenciar de forma invisível, Xin Liu, artista e engenheira de origem chinesa do MIT Media Lab, criou uma máscara de carnaval high-tech, que envolve a face da pessoa e muda consoante a respiração do seu utilizador.
E como funciona? Chama-se Masque e é um aparelho que usa um sensor para captar a respiração, colocado por baixo do nariz. Usa depois auscultadores com tecnologia de origem militar (chamada bone conduction) colocados perto das orelhas, que captam (e enviam) vibrações de som e permitem ao utilizador ouvir a sua própria respiração. O efeito deste feedback no indivíduo revelou-se surpreendente.
De acordo com a Digital Trends, que cita estudos da tese de Xin Liu, a Masque conseguiu criar maior ansiedade e desejo sexual aos utilizadores, apesar de nenhuma mudança fisiológica registada. A pesquisa mostra o quão sensível os humanos pode ser à influência invisível da tecnologia, nesta espécie de reprogramação do nosso corpo.
“É um pouco como aquelas situações em que nos ouvimos a falar ao telefone e como reagimos de forma diferente por isso. A respiração é uma as poucas coisas que as pessoas podem facilmente mudar sozinhas”
Xin Liu
Por isso, o aparelho pega nos padrões de respiração dos utilizadores e transmite esses sons de volta. A sua inspiração para a própria, máscara, que é ainda um protótipo, veio das máscaras do Carnaval italiano – popularizadas em Veneza. Trabalhou com o designer industrial Hongxin Zhan, para desenvolver o aparelho que esconde toda a tecnologia numa estrutura ao estilo serpente e inclui um pequeno sensor de temperatura por baixo das narinas, para captar o estilo de respiração.
Num dos estudos feitos, os participantes que usaram a máscara foram divididos em dois grupos e tiveram de fazer uma pequena tarefa. Num deles, ouviam uma versão mais alta e rápida da sua própria respiração e acabaram por terminar tudo com bem maior ansiedade.
Noutro teste, 14 homens heterossexuais tinham de avaliar o grau de atração e excitação que sentiam ao verem fotos de mulheres durante 30 segundos. Os resultados indicaram que aqueles que tiveram um feedback da sua respiração mais alta e rápida reportaram maiores índices de atração pelas mulheres nas fotos.
Quanto mais rápida é a respiração mais oxigénio circula no cérebro humano para ajudar o indivíduo a lidar com situações de maior intensidade. Liu, para já, não tem intenções de comercializar o aparelho que vê mais como um projeto de pesquisa que pretende também mostrar como a tecnologia pode influenciar o nosso comportamento, incluindo o facto de existir muito bullying e mal dizer nos comentários das redes sociais.
Xin Liu resume assim, desta forma quase filosófica, os resultados da sua pesquisa:
“É fascinante perceber como construímos a nossa perceção de nós próprios. A imagem que temos de nós mesmos é um fluxo que está sempre a mudar, o que é bom e mau ao mesmo tempo. O bom disto é que significa que somos mais flexíveis e estamos a crescer e adaptarmo-nos constantemente ao mundo que nos rodeia. O lado mais problemático é que somos mais facilmente manipuláveis. Precisamos de aprender como ser mais sensíveis, sentir os sinais do nosso corpo e fazer decisões conscientes, em ver de vivermos presos a um fluxo [como se vê hoje com alguns dos vícios em aparelhos móveis e redes sociais]. Somos, na verdade, muito facilmente manipuláveis”.
Este artigo foi originalmente publicado na edição de 2 de agosto de 2018 do Diário de Notícias